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Crédito reduz espaço de agiotas gerar PDF versão para
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01-Jan-2008
Um comerciante precisava antecipar o recebimento de R$
120 mil para sua empresa. Não teve dúvidas, recorreu a um
agiota. "Os bancos não emprestam valores muito altos", diz.
Obteve R$ 80 mil, juros de 50%. Como garantia, alienou a
casa em nome do financiador. Quando recebeu os R$ 120 mil,
tentou quitar a dívida, mas os juros já tinham aumentado o
montante. "Sobraram várias notas promissórias de R$ 1 mil",
avalia o empresário, que não quis ser identificado.
Hoje, ele não faz mais isso. "Ano passado precisei de R$ 15
mil e fui a um banco. Eles refinanciaram o meu carro e
consegui o dinheiro", diz, aliviado.
Esse tipo de história parece cada dia mais comum. Os velhos
agiotas vêm perdendo espaço com o crescimento acelerado do
crédito bancário. O espaço antes ocupado pelo crédito
informal, hoje pertence às financeiras.
"Uma vez ofereci empréstimo e o cara respondeu que ele era
agiota e que também tinha dinheiro para oferecer", brinca
uma das promotoras que trabalha no centro de São Paulo.
"Depois que vieram as financeiras, não vi mais agiotas", diz
um plaqueiro que anuncia a compra de ouro e prata também na
região central de São Paulo. "Empréstimo? Só nas
financeiras. Agiota não tem mais, não", afirma o balconista
de uma lanchonete.
Uma caminhada pela região, antigo centro financeiro de São
Paulo e diversas promotoras de crédito oferecem dinheiro
"sem comprovação de renda e sem consulta ao Serasa". Em meia
hora de caminhada, panfletos de diferentes bancos e
financeiras. "Você só precisa ter talão de cheque" diz uma
das vendedoras. Um carro também tem valor, já que o
importante é ter uma garantia.
Segundo o economista Miguel de Oliveira, que acompanha esse
mercado há alguns anos, o volume caiu consideravelmente. Uma
mostra de que este mercado encolheu para os agiotas e da
acirrada competição entre o mercado formal e o informal é a
queda das taxas cobradas.
Historicamente, as taxas da agiotagem girava em torno de 25%
ao mês e não havia mudanças. Nos últimos dois anos, as taxas
caíram rapidamente e já atingem 18% ao mês, em março deste
ano, segundo levantamento feito por Oliveira para a
Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração
e Contabilidade (Anefac). Alguns agiotas já têm taxas
menores até do que o cheque especial dos bancos, diz
Oliveira. "Isso nunca houve".
Por outro lado, os juros do cheque especial para pessoas
físicas registrou em novembro seu piso histórico, de 7,5% ao
mês, em média. É a menor taxa apurada pelo Banco Central
(BC) desde julho de 1994. Mas os juros continuam altos.
Algumas bandeiras de cartão de crédito cobram ainda mais:
17,95% ao mês, mais o Imposto sobre Operações Financeiras
(IOF).
Assim, com a oferta crescente de crédito e as taxas em queda
(para as pessoas físicas as taxas caíram nove pontos
percentuais ao longo do ano) houve um redução espaço dos
agiotas.
O próprio Banco Central reconhece o movimento. A
bancarização "reduziu a oferta informal de crédito", avaliou
o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, em
entrevista à imprensa. Segundo ele, o maior número de
brasileiros com acesso aos bancos, aliado à queda dos juros,
tirou clientela dos agiotas.
De fato, o volume de contas correntes cresceu de forma
acelerada. Hoje são mais de 100 milhões, sendo 80 milhões de
contas de pessoas físicas, segundo dados da Federação
Brasileira de Bancos (Febraban), um aumento 44% desde 2002.
O número de cartão de crédito também cresceu bastante,
atingindo quase 80 milhões.
Desde 2004, o volume de crédito mais do que dobrou, passando
de R$ 417 bilhões para R$ 908,8 bilhões, em novembro. No
próximo ano deve superar a marca de R$ 1 trilhão. Vários
fatores colaboraram com essa disparada dos empréstimos
formais: estabilidade econômica, queda das taxas de juros e
a elevação do emprego e da renda. Além disso, alguns acertos
legais facilitaram o financiamento de bens, com a alienação
fiduciária, que reduziu os riscos para os bancos.
A necessidade de expandir a oferta com a queda dos juros
levou ainda o banco para o mercado de mais baixa renda, alvo
fácil dos agiotas. "Tem crescido a demanda por informações
dessas classes mais baixas por parte das financeiras",
explica a analista da Equifax, Analia Pinillos.
"Há uma dificuldade de identificação das pessoas de baixa
renda quanto ao aspecto comportamental, onde mora, qual
compromisso tem com as dívidas. Cada classe tem seu estilo,
hábitos diferenciados, consumo diferenciados", diz Pinillos.
Os agiotas não precisam se preocupar com esse tipo de
informação. A forma de cobrança do mercado informal também
não segue métodos muito ortodoxos, mas é eficaz. "A forma
como eles falam, assusta. Eles batem na mesa, chutam
cadeira...", lembra uma das vítima dos agiotas, que também
não quis ser identificada. "Dá medo".
Os empréstimos mais comuns nos agiotas são os liberados
através da emissão de cheques pré-datados que vão de um a
doze meses. Outra prática muito comum é a simulação de uma
compra através de cartão de crédito. O dinheiro é liberado
para o agiota, mas nenhum produto é entregue. O agiota tem a
garantia de recebimento e quem assume o risco, mesmo sem
saber, é a administradora do cartão.
O mais comum, no entanto, ainda é a alienação do automóvel
dado como garantia, ou mesmo do imóvel, justamente as
modalidades que mais cresceram no sistema formal. Já tem
financeiras aceitando a "troca com troco" até do imóvel,
como o Banco Fibra e a Brazilian Mortgages.
Fonte jornal Valor Econômico - Fernando Travaglini
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